Transexuais nas novelas brasileiras


A transexualidade abordada nas novelas com intuito de debater a intolerância

As novelas brasileiras costumam abordar temas bastante relevantes na sociedade, visando sempre levantar assuntos que precisam ser debatidos,  muitos deles desconhecidos pela maioria. Não é algo novo, mas, conforme novas causas vão surgindo e ganhando voz, os casos são trazidos para serem apresentados ao grande púbico e informar seus telespectadores sobre os mais variados temas. Percebem -se mudanças,, que vão desde doenças, uso de drogas e maus tratos aos idosos a assédio sexual, pedofilia e Transgênero. Esses assuntos, que antes eram tabus sociais, mostra  a importância da novela na vida dos brasileiros como instrumento de discussão e aprendizado. Muitas vezes essas narrativas são um espelho de histórias verídicas de pessoas comuns que lutam por suas causas.
As causas sociais das Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBT), por exemplo, muitas vezes eram retratadas de forma caricata, sem que a história pudesse se desenvolver de forma educativa.De acordo com o Relatório Mundial da Transgender Eupore, de um total de 325 assassinatos registrados em 7        países entre 2016 e 2017, mais da metade (52%) ocorreram no Brasil (171), seguido do México (56) e dos Estados Unidos (25). O Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo. Os dados são alarmantes e uma forma de debater é mostrando está realidade para a sociedade, como forma de conscientizar.
A novela das 21h, da Rede Globo ‘ A Força do Querer’, abordou em 2017 o primeiro caso de transexual que passou por todo o processo desde a descoberta, aceitação da família até a transição aos olhos do público. Mas a abordagem da transexualidade em narrativas da Globo não começou só agora. Em 2011, a novela ‘ As Filhas da Mãe’, de Silvio de Abreu, tinha uma personagem trans chamada Ramona, papel interpretado pela atriz Claudia Raia.
Na trama, ela, que cresceu como menino e se chamava Ramon, volta do exterior com o novo gênero. A bela trans recebe o apoio da mãe, Lulu (Fernanda Montenegro), mas enfrenta a transfobia do homem por quem se apaixona, Leonardo (Alexandre Borges). A história, exibida às 19h, foi rejeitada por boa parte dos telespectadores. A baixa audiência limitou a discussão pública dos aspectos relacionados à transexualidade de Ramona. Na época o tema não foi tratado de forma didática e com apoio das grandes mídias, assim como não tinha o apoio das redes sociais, o que hoje em dia é fundamental para alavancar ou destruir uma produção.
A mídia tem um espaço importante nesse meio, pois se torna um elo entre a ficção e a realidade. Segundo a professora de Teorias da Comunicação, Michele Vieira, “A mídia hoje dá um espaço de visibilidade, desconstruindo aquele padrão de personagens, trazendo para a história um papel que até então não estava dentro das narrativas”, conta.  A própria telenovela é um produto que até um determinado momento, era um reflexo da sociedade conservadora, onde os papeis sociais eram predeterminados, tinham um perfil padronizado de protagonista e antagonista.
A categoria social do trans, dentro da mídia,  vem abalar esses preconceitos, sim. A mídia está trazendo uma discussão para a esfera pública, não que ela vá mudar o pensamento de todos, mas sim, trazer uma discussão sobre o assunto. Muitas histórias surgiram depois da Ivana ser apresentada ao público como um homem trans. As pessoas, no geral, se sentiram representadas pelo personagem.
O nome é Jota Sanches, mas, na verdade ele nasceu menina. O transexual tem um canal no youtube, J. Sanches, no qual procura ajudar outras pessoas que estão passando pela transição.  Jota foi criado até os 11 anos pela avó, que é uma crente fervorosa da igreja evangélica. Foi condicionado a frequentar a igreja, e lá aprendeu o que era certo e errado, na visão deles. Ele já sabia que havia algo diferente nele, pois era apaixonado por uma prima de 20 anos. Aos 12 anos foi morar com a mãe, que sempre foi uma pessoa que se considerava de mente "aberta". Foi nessa idade que teve contato com as primeiras lésbicas e teve meu primeiro beijo gay
. Nessa época, Jota estava com a cabeça super confusa e não entendia o que estava acontecendo. Aos 15 revelou à mãe quem realmente era: uma lésbica. A aceitação dela não foi nada boa. Por isso, foi morar com o pai no interior de São Paulo, onde foi acolhido e ouviu do pai que a condição dele não era nada de anormal. O preconceito, somado às agressões físicas e emocionais, deixa maras profundas nas pessoas. A expectativa de vida das mulheres trans é de 35 anos. A média nacional, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de 75, 5 anos. Os transexuais vivem 40 anos a menos, no Brasil, do que a sociedade em geral.
Não é difícil ouvir relatos emocionantes de homens e mulheres trans que ficaram presos em seus corpos por muito tempo em busca de ajuda.. Casos como o de ‘Jota’ não costumam ser compreendido pelos familiares, o apoio nesse momento é fundamental. A psicóloga e sexóloga, Priscila Junqueira, autora do Ebook ‘ Sua Sexualidade’, acha importante a presença e o apoio da família durante esse processo. Nesses casos, a família sempre deve ser ouvida, caso queira. E muitas vezes precisa fazer terapia também. “ É uma mudança para todos”, finaliza a psicóloga.
Normalmente, a pessoa descobre a transexualidade cedo. Jota conheceu a transexualidade aos 23 anos, em Pedreira, São Paulo, onde vive até hoje. Ele classifica essa época como ‘ Thammy’, em referência à filha da cantora Gretchen, Thammy Miranda, que se assumiu transexual em 2014. Jota conta que na época leu entrevistas, assistiu a reportagens e se via nelas. Nesse momento, descobriu que tudo o que sentia, como não aceitar o próprio corpo, a vontade de ter músculos, barba, um quadril reto e inúmeras outras características que o faziam pensar que estava tendo problemas mentais era uma vontade de gritar ao mundo que seu verdadeiro ‘Jota’ era um menino e não uma menina, como havia nascido e sido criado.
 Na novela ‘ A Força do Querer’, o público pode  ver de perto os dramas vividos pela personagem Ivana, interpretado pela atriz, Carol Duarte. Assim, como Jota achava que estava com algum problema mental, na novela, Ivana não aceitava o corpo que havia nascido e depois de muito relutar, revelou aos pais sua vontade de passar pela transição. A personagem chegou a ser agredida e ofendida em diversos momentos da trama. As agressões começaram após Ivana se vestir com trajes masculinos. Na vida real, os transexuais sofrem ao sair na rua e esbarrar com o preconceito. Uma triste realidade para muitos transexuais que vivem no Brasil. Só em 2017, o número de óbitos de pessoas trans teve um aumento de 6%, segundo o Grupo Gay da Bahia (GCB).
Outro levantamento  mostra que a cada 19 horas um LGBT é assassinado ou se suicida vítima da “LGBTfobia”, o que faz do Brasil o campeão mundial desse tipo de delito. Esses crimes são cometidos, na maioria das vezes, por pessoas desconhecidas das vítimas, ou seja, uma questão de matar por puro ódio. Apenas 4% (18) dos criminosos tinham algum tipo de vínculo com a vítima. E preciso que a sociedade seja educada para lidar com o diferente, e a novela deu o primeiro passo com a personagem Ivana.
Na trama, Ivana (Carol Duarte) se incomoda com o próprio corpo, colocando faixas para tentar esconder o volume dos seios, além de bater neles, como forma de repúdio e por achar que as mamas não deveriam fazer parte do seu corpo. Esse conflito é algo que se percebe logo no início da transição. Assim como Ivana, Jota se via na personagem. Durante uns dez, anos sonhava que pegava manequins masculinos e os cortava para que ele pudesse entrar e tomar aquela forma para si. “ Quando eu acordava, cada milímetro do meu corpo doía, como se realmente aquilo estivesse acontecido”, conta. Logo em seguida apareceu Tarso Brant, no programa Pânico, nome artístico de Tarso Alexandre da Silva Borges, nascido Tereza Cristhina da Silva Borges, um ator e modelo transgênero brasileiro.
Jota conta que foi aí que realmente se identificou e começou a pesquisar sobre o tema, mas ressalta que sempre teve medo da não aceitação das pessoas que ele ama. Por causa disso, foi deixando de lado o sonho e bem-estar para outro momento. Quando a novela ‘ A Força do Querer’ foi ao ar, e a transição da Ivana aconteceu, Jota conta que foi só explosão de felicidade. A novela foi um divisor de águas para a sociedade e para aqueles que como ele se sentiam “ presos”. O ator Tarso foi uma peça fundamental para a composição da personagem Ivan/Ivana e além de inspirar a autora, participou da novela.
O ator, assim como a personagem, sentia um desconforto com as roupas, optando por usar camisetas e shorts, algo mais despojado. Na adolescência, tinha rejeição à evolução das características femininas, os seios, a voz e a menstruação. Tudo isso se adequou depois da mudança. O apoio de Tarso ajudou a autora Gloria Peres a compor de forma didática e pontual a personagem, além de apresentar o tema Transexualidade para o povo brasileiro.
 Para o ator, a autora deu ênfase à compreensão do público sobre como se sente uma pessoa que passa pela transição. “ Com certeza serviu para contribuir, pois colocando esse assunto em discussão na sociedade, o público teria uma fonte de informação detalhada a partir dos complementos da mídia. Trazendo uma mensagem muito positiva e motivadora”. Na época de sua descoberta, o jovem ator buscava esse tipo de personagem como referência. “ Tirando o contexto familiar, a narrativa se assemelha muito com a minha e a de várias outras trans que vivem essa inconformidade com o próprio gênero”.. O ator se tornou espelho para muitos que buscam se descobrir e conseguir vencer os obstáculos da transição.
Tarso foi procurado por muitas pessoas com histórias parecidas com a dele, em busca de ajuda e conselho. Para ele, a compreensão que a sociedade tem hoje em relação a múltiplos assuntos vem se desenvolvendo cada vez mais. Sobre o tema transexualidade, Tarso se mostra confiante. “  Percebo que melhorou muito depois de ter sido abordado em rede nacional e principalmente com o apoio da mídia, que ajudou informando e buscando mais histórias”. Mas pondera: “O preconceito existe, infelizmente, pela falta de interesse em absorver essa informação, e propagação de uma cultura que não se adequa mais  à demanda social que temos hoje. Nada que com o tempo, estudos, avanços tecnológicos e debates públicos não seja convergente”, finaliza. A discussão desse tema aumentou durante a exibição da novela.
            As famílias começam a debater em casa sobre o tema, o que é muito comum. Como foi o caso da socióloga, feminista e jornalista Renata Feital, que, além de explicar sobre o processo da televisão como agente de transformação, conta sobre como foi assistir à novela com seu irmão, que tinha uma opinião contraria à dela sobre as questões abordadas na trama. A socióloga assistiu alguns capítulos ao lado do irmão, de 55 anos, que não aceitava a personagem trans na novela, tinha preconceito e debochava das cenas em que a Ivana/Ivan aparecia,  chegando a fazer comentários de teor pejorativo. Renata conta que sempre o rechaçava, questionando-o “ Por que ela não pode querer ser desse jeito? ”, “ Toda as vezes que a transexual aparecia, nós tratávamos várias discussões”, completa.
           Ela sabe que não vai mudar a opinião de alguém de uma hora para outra, mas reparou que a partir das conversas, os comentários maldosos diminuíram e as vezes ele ficava pensativo antes de falar algo. “A novela é um entretenimento, um produto da indústria cultural, mas o intuito dela é pautar os meios de comunicação a discutirem esses conteúdos”, afirma Renata. No Brasil, tem a função social de fazer com que a sociedade discuta temas importantes. A abordagem de causas sociais nas telenovelas é chamada de merchandising social, que é a implementação de uma ação educativa para informar o público, seja com um beijo gay, ou o direito das empregadas domésticas. As mensagens sociais fazem parte do roteiro de uma novela, direta ou indiretamente. Esses merchandisings sociais nas novelas correspondem a 25% da programação na TV, e as novelas são o palco ideal para tratar causas sociais. Pois sempre têm pessoas em busca de ajuda e de identificação com os temas tratados.
          Theo, mora em São Paulo, e é um homem trans (pessoa trans que foi designada mulher ao nascer, mas que se identifica como homem). Agora, com 34 anos, conta como foi a sua relação ao ver uma personagem trans na TV. Theo conta que acompanhava a novela, e que abordagem do tema o ajudou a entrar no assunto com a sua companheira, mostrando a ela que se sentia igual a Ivana. Theo conta alguns de seus dramas que viu representado na novela. “ Tinha repulsa e nojo dos meus seios, queria arrancar de qualquer jeito”, conta. Sobre a abordagem da trama, analisa que a autora discutiu na trama. “ Não teve tempo para mostrar as pessoas o que é ser uma pessoa trans”, analisa. Theo conta que viu uma grande dificuldade nas pessoas em saber a distinção entre gênero e orientação sexual.
 A psicóloga Priscila Junqueira explica a diferença entre os termos. “ Identidade de gênero se refere a como a pessoa se identifica, e orientação sexual está relacionada com quem a pessoa se envolve afetiva e/ ou sexualmente”, finaliza. Essas dúvidas frequentes fazem com que muitas pessoas trans procurem uma ajuda profissional. O próximo passo da maioria que passa pela transição é a injeção de hormônios e a retirada, na maioria dos casos, das mamas, das genitais e outros membros característicos de cada sexo.
      Tarso Braint retirou as mamas em 2015, mas no início de seu processo de transição deu muita importância ao trabalho de profissionais capacitados para ampará-lo, entre eles endócrino, personal trainer e nutricionista. Durante o processo, Tarso conta que seus maiores psicólogos foram a fé, a leitura, a escrita, a prática de exercícios físicos (academia) e mentais (yoga), que o ajudaram a não se afogar nos sentimentos muito intensos que são característicos dessa mudança. “Depois de alguns anos é que fui encontrar uma terapeuta, e hoje em dia ela complementa muito esse processo de auto compreensão/ posicionamento social/ expressão”, conta. 

A novela ajudou a dar uma voz a essa nova causa social, mas é preciso mais estudos, leis e apoio para que os transexuais se sintam cada vez mais acolhidos, pois só assim, poderá existir uma mudança favorável. A sociedade precisa ser educada desde o nascimento a ter empatia pelo outro e que cada pessoa ama de uma forma diferente. As novelas e os meios de comunicação fazem essa ponte entre a ficção e o mundo real. Em uma breve pesquisa ao site Memória Globo Teledramaturgia, 4,4% das novelas da Rede Globo têm algum tipo de personagem transexual ou transgênero ao longo do tempo, sendo que 85% dos personagens transexuais ou transgênero tiveram final feliz. O preconceito precisa acabar, só assim, os homens e as mulheres trans poderão ter um final feliz na vida real também.



NOME: ANNA CAROLINA SALES DE BARROS

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