A terapia cognitiva comportamental (TCC) ajuda os portadores de transtorno do espectro autista a regularem suas emoções, desenvolverem o controle dos impulsos e a melhorar o comportamento, pois, em muitas situações, eles lutam com medos, ansiedades e com a depressão. No Isso é Notícia de hoje, a psicóloga Katia Lara, aborda a temática e falar sobre os benefícios da terapia.
PRODUÇÃO: ANA ELIZA ROSAS E ANNA CAROLINA SALES
REPORTAGEM: ANNA CAROLINA SALES
APRESENTAÇÃO: ANNA CAROLINA SALES
Analise essa situação a seguir: Tem dias que ele é um cara incrível. Mas em outros, agressivo, te bate, te ofende, te coloca pra baixo, mas logo você esquece, pois ele se arrependeu, e te surpreendeu com bombons e um pedido de desculpas. Você aceita, pois ele se mostrou arrependido com o que fez. Você se identificou com essa situação? Esse tipo de situação é muito característico de quem vive em um relacionamento abusivo. Por isso é tão difícil identificá-lo. A primeira coisa a fazer ao se ver nessa relação abusiva é procurar ajuda e identificar como anda o estágio da relação.
O tema Relacionamento Abusivo vem ganhando cada vez mais notoriedade, mas o tema é antigo e só foi ganhando força graças a farmacêutica Maria da Penha, que lutou para que seu agressor viesse a ser condenado, e hoje luta em defesa dos direitos das mulheres. Segundo dados divulgados pelo Ministério dos Direitos Humanos ( MDH), sobre o Disque 180, do dia 1 de Janeiro de 2018 até 30 de junho de 2018, o serviço, realizou mais de 500 mil atendimentos, dos quais mais de 400 mil correspondiam a disseminação de informações, 38.681 são registros de denúncias de violência contra à mulher, 34.158 são relatos de violência. O serviço é gratuito e é oferecido pelo MDH e funciona 24 horas todos os dias, incluindo feriados e fins de semana.
Esses números mostram que além da denúncia, a procura pelo esclarecimento, a conversa com os profissionais por trás do Disque Mulher, vem aumentando e esse é o principal caminho que muitas mulheres estão percorrendo, de forma segura e anônima, para tirarem suas dúvidas e denunciarem agressão em seus relacionamentos.
Relacionamento abusivo se dá de várias maneiras, enxergamos na maior parte do tempo como apenas agressão física, porque é mais evidente, mas ele acontece de várias maneiras como violência verbal, que é mais comum e velada. Normalmente, e na maioria dos casos é o homem que é violento com a mulher. Segundo a psicóloga, Lidiane Salcedo, o homem se mostra cuidadoso, apaixonado, mas dentro do lar onde, só vive os dois, as agressões e a ameaça são mais frequentes e ele se mostra totalmente diferente do que é na frente dos parentes e amigos.
COMO É VIVER EM UM RELACIONAMENTO ABUSIVO?
A dona de casa Danubia, de 25 anos, passou por um relacionamento abusivo e conta os momentos de terror que passou ao lado de seu companheiro, “Fui casada há quatro anos e nesse relacionamento aconteceram várias coisas. No começo quando a gente se conheceu era tudo lindo, maravilhoso. Ele era um homem muito bom, em nenhum momento ele demonstrou ter essas atitudes que ele viria a ter ao decorrer do relacionamento.” Uma das características de um relacionamento tóxico como o que Danúbia viveu é o extremo de uma relação, onde em um momento o parceiro se mostra o cara mais incrível que você já conheceu e no outro, uma face nunca antes vista, um companheiro totalmente desrespeitoso que humilha, agride e bate.
A vítima continua seu relato contando que o relacionamento se desenvolveu muito rápido, “ Foi um relacionamento muito intenso, nos conhecemos em novembro e já fomos morar junto em janeiro. foi uma coisa muito rápida, mas no começo era uma relação boa.” As coisas começaram a mudar logo que Danúbia engravidou e estava no fim da gestação.“ Logo depois eu engravidei, e com oito meses de gestação, ele começou a demonstrar essas atitudes abusivas, e foi aí que eu levei a minha primeira coça violenta. Para que isso não continuasse ele quebrou a minha casa inteira, e eu fugi para a casa da minha mãe”, completa Danubia, que hoje está separada do parceiro violento.
A confusão mental é uma das características dos relacionamentos abusivos. Segundo a psicóloga Lidia Salcedo, “ Nesse tipo de relacionamento ocorrem picos onde o parceiro fica mal, comete a agressão e logo após se tornar ou se mostra uma pessoa melhor. Muitas vezes a mulher acredita, acha que o parceiro vai mudar, voltam a ter uma vida a dois novamente, e é nesse momento de reconciliação que o parceiro tenta compensar o mal estar causado a mulher, até entrar no ciclo de agressão, seja verbal ou física, novamente.
TRAUMAS E SEQUELAS:
Quando a mulher decide sair da relação é muito difícil ela querer se relacionar de novo com outra pessoa, os traumas deixado por esse tipo de relacionamento, pode durar anos e dificilmente a mulher terá a mesma confiança que tinha antes. Quando a vítima não consegue sair, os traumas são ainda mais piores, podendo desenvolver ansiedade e depressão, muitas vezes. Esse tipo de relacionamento afeta várias esferas na vida da mulher, como o trabalho, relacionamento familiar, que muitas vezes, o agressor acaba impedindo a vítima de se relacionar com a própria família.
Quando a mulher fica presa a esse poder e sem poder tomar uma atitude para mudar, como ir ver a família, trabalhar, falar com outras pessoas sobre a situação, ela acaba se calando, e guardando pra si todo o sofrimento e isso faz mal, causando transtornos psicológicos, como a depressão e até mesmo uma crise de ansiedade terrível, como sinaliza a psicóloga Lidiane. Em outros casos, a sensação de insegurança e mal estar são mais frequentes.
“ NESSE DIA ERA O MEU CHÁ DE BEBÊ, E ELE APARECEU LÁ COMO SE NADA TIVESSE ACONTECIDO. EU NÃO FALEI NADA,PORQUE EU TINHA MUITO MEDO DE CONTAR E DEPOIS CONTINUAR COM ELE,PORQUE EU NÃO QUERIA CRIAR A MINHA FILHA LONGE DELE”, DANÚBIA.
Muitas vezes a mulher fica presa ao relacionamento abusivo por medo de ficar sozinha, ou da revolta do parceiro, como é o caso da Danubia, que não queria criar a filha dos dois sozinha.
“ EU PENSEI QUE ELE IA MUDAR, QUE AS REAÇÕES DELE MUDARIAM POR ELE NÃO SABER LIDAR COM ESSA NOVA VIDA, DE PAI E HOMEM CASADO. POIS TUDO FOI MUITO RÁPIDO, O RELACIONAMENTO, O CASAMENTO E A GRAVIDEZ E ISSO MEXEU COM ELE, ELE NÃO QUERIA ACEITAR QUE ELE ESTAVA COM ESSA RESPONSABILIDADE TODA, POIS ANTES ELE ERA LIVRE E SAIA COM OS AMIGOS, O DINHEIRO ERA SÓ PRA ELE, NÃO TINHA QUE SE PREOCUPAR COM NADA, E AGORA ELE ESTAVA COM UMA FAMÍLIA QUE PRECISAVA DELE.”
Assim como Danubia, muitas outras mulheres sofrem por dia em seus lares. A lei protege mas também silencia a vítima muitas vezes. E as crianças que nascem nesse lares, assistem de perto à toda violência desde cedo, e isso acaba influenciando no seu modo de ser e de agir no futuro.
“ ELE ME COLOCOU PARA DORMIR DO LADO DE FORA DE CASA, ME AMEAÇOU COM UMA FACA. TUDO ISSO COM A MINHA FILHA DENTRO DE CASA DORMINDO E EU TINHA ACABADO DE CHEGAR DO TRABALHO" - DANUBIA ÁVILA, SOBRE AS AGRESSÕES ACONTECERAM NA FRENTE DA FILHA DO CASAL.
NÚMERO DA VIOLÊNCIA
A cada dia cerca de 13 mulheres são assassinadas no Brasil. Segundo o Mapa da Violência de 2015, dos 4.762 assassinatos de mulheres registrados em 2013 no Brasil, 50,3% foram cometidos por familiares, sendo que em 33,2% destes casos, o crime foi praticado pelo parceiro ou ex. No gráfico a seguir, números de registro de denúncias para o 180, em 2017:
Entre as principais denúncias registradas pelo 180, mais de 40% é em relação a violência física e 20% psicológica. Entre as de menor frequência estavam a violência sexual, Cárcere privado, tentativa de feminicidio e a violência moral.
FORMAS DE VIOLÊNCIA CONTRA À MULHER
Não é só entendido como violência contra à mulher a agressão física, existem muitas outras formas de violência, como as a seguir :
Violência contra a mulher - É qualquer conduta-ação ou omissão - de discriminação, agressão ou coerção, ocasionada pelo simples fato de a vítima ser mulher e que cause dano, morte, constrangimento, limitação, sofrimento físico, sexual, moral, psicológico, social, político ou econômico ou perda patrimonial. Essa violência pode acontecer tanto em espaços públicos como privados.
Violência de gênero - violência sofrida pelo fato de se ser mulher, sem distinção de raça, classe social, religião, idade ou qualquer outra condição, produto de um sistema social que subordina o sexo feminino.
Violência doméstica - quando ocorre em casa, no ambiente doméstico, ou em uma relação de familiaridade, afetividade ou coabitação.
Violência familiar - violência que acontece dentro da família, ou seja, nas relações entre os membros da comunidade familiar, formada por vínculos de parentesco natural (pai, mãe, filha etc.) ou civil (marido, sogra, padrasto ou outros), por afinidade (por exemplo, o primo ou tio do marido) ou afetividade (amigo ou amiga que more na mesma casa).
Violência física - ação ou omissão que coloque em risco ou cause dano à integridade física de uma pessoa.
Violência institucional - tipo de violência motivada por desigualdades (de gênero, étnico-raciais, econômicas etc.) predominantes em diferentes sociedades. Essas desigualdades se formalizam e institucionalizam nas diferentes organizações privadas e aparelhos estatais, como também nos diferentes grupos que constituem essas sociedades.
Violência intrafamiliar/violência doméstica - acontece dentro de casa ou unidade doméstica e geralmente é praticada por um membro da família que viva com a vítima. As agressões domésticas incluem: abuso físico, sexual e psicológico, a negligência e o abandono.
Violência moral - ação destinada a caluniar, difamar ou injuriar a honra ou a reputação da mulher.
Violência patrimonial - ato de violência que implique dano, perda, subtração, destruição ou retenção de objetos, documentos pessoais, bens e valores.
Violência psicológica - ação ou omissão destinada a degradar ou controlar as ações, comportamentos, crenças e decisões de outra pessoa por meio de intimidação, manipulação, ameaça direta ou indireta, humilhação, isolamento ou qualquer outra conduta que implique prejuízo à saúde psicológica, à autodeterminação ou ao desenvolvimento pessoal.
Violência sexual - ação que obriga uma pessoa a manter contato sexual, físico ou verbal, ou a participar de outras relações sexuais com uso da força, intimidação, coerção, chantagem, suborno, manipulação, ameaça ou qualquer outro mecanismo que anule ou limite a vontade pessoal. Considera-se como violência sexual também o fato de o agressor obrigar a vítima a realizar alguns desses atos com terceiros.
Footnotes: MDH, VIOLÊNCIA CONTRA à MULHER,
A transexualidade abordada nas novelas com intuito de debater a intolerância
As novelas brasileiras costumam abordar
temas bastante relevantes na sociedade, visando sempre levantar assuntos que
precisam ser debatidos, muitos deles
desconhecidos pela maioria. Não é algo novo, mas, conforme novas causas vão
surgindo e ganhando voz, os casos são trazidos para serem apresentados ao
grande púbico e informar seus telespectadores sobre os mais variados temas. Percebem
-se mudanças,, que vão desde doenças, uso de drogas e maus tratos aos idosos a
assédio sexual, pedofilia e Transgênero. Esses assuntos, que antes eram tabus
sociais, mostra a importância da novela
na vida dos brasileiros como instrumento de discussão e aprendizado. Muitas
vezes essas narrativas são um espelho de histórias verídicas de pessoas comuns
que lutam por suas causas.
As causas sociais das Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e
Transgêneros (LGBT), por exemplo, muitas vezes eram retratadas de forma
caricata, sem que a história pudesse se desenvolver de forma educativa.De
acordo com o Relatório Mundial da
Transgender Eupore, de um total de 325 assassinatos registrados em 7 países entre 2016 e 2017, mais da
metade (52%) ocorreram no Brasil (171), seguido do México (56) e dos Estados
Unidos (25). O Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo. Os dados são
alarmantes e uma forma de debater é mostrando está realidade para a sociedade,
como forma de conscientizar.
A novela das 21h, da Rede Globo ‘ A
Força do Querer’, abordou em 2017 o primeiro caso de transexual que passou por
todo o processo desde a descoberta, aceitação da família até a transição aos
olhos do público. Mas a abordagem da transexualidade em narrativas da Globo não
começou só agora. Em 2011, a novela ‘ As Filhas da Mãe’, de Silvio de Abreu,
tinha uma personagem trans chamada Ramona, papel interpretado pela atriz
Claudia Raia.
Na trama, ela, que cresceu como menino e
se chamava Ramon, volta do exterior com o novo gênero. A bela trans recebe o
apoio da mãe, Lulu (Fernanda Montenegro), mas enfrenta a transfobia do homem
por quem se apaixona, Leonardo (Alexandre Borges). A história, exibida às 19h,
foi rejeitada por boa parte dos telespectadores. A baixa audiência limitou a
discussão pública dos aspectos relacionados à transexualidade de Ramona. Na
época o tema não foi tratado de forma didática e com apoio das grandes mídias,
assim como não tinha o apoio das redes sociais, o que hoje em dia é fundamental
para alavancar ou destruir uma produção.
A mídia tem um espaço importante nesse
meio, pois se torna um elo entre a ficção e a realidade. Segundo a professora
de Teorias da Comunicação, Michele Vieira, “A mídia hoje dá um espaço de
visibilidade, desconstruindo aquele padrão de personagens, trazendo para a
história um papel que até então não estava dentro das narrativas”, conta. A própria telenovela é um produto que até um
determinado momento, era um reflexo da sociedade conservadora, onde os papeis
sociais eram predeterminados, tinham um perfil padronizado de protagonista e
antagonista.
A categoria social do trans, dentro da
mídia, vem abalar esses preconceitos,
sim. A mídia está trazendo uma discussão para a esfera pública, não que ela vá
mudar o pensamento de todos, mas sim, trazer uma discussão sobre o assunto. Muitas
histórias surgiram depois da Ivana ser apresentada ao público como um homem
trans. As pessoas, no geral, se sentiram representadas pelo personagem.
O nome é Jota Sanches, mas, na verdade
ele nasceu menina. O transexual tem um canal no youtube, J. Sanches, no qual procura ajudar outras pessoas que
estão passando pela transição. Jota
foi criado até os 11 anos pela avó, que é uma crente fervorosa da igreja
evangélica. Foi condicionado a frequentar a igreja, e lá aprendeu o que era
certo e errado, na visão deles. Ele já sabia que havia algo diferente nele,
pois era apaixonado por uma prima de 20 anos. Aos 12 anos foi morar com a mãe,
que sempre foi uma pessoa que se considerava de mente "aberta". Foi nessa idade que teve contato com as
primeiras lésbicas e teve meu primeiro beijo gay
. Nessa época, Jota estava com a cabeça super
confusa e não entendia o que estava acontecendo. Aos 15 revelou à mãe quem
realmente era: uma lésbica. A aceitação dela não foi nada boa. Por isso, foi
morar com o pai no interior de São Paulo, onde foi acolhido e ouviu do pai que
a condição dele não era nada de anormal. O preconceito, somado às agressões
físicas e emocionais, deixa maras profundas nas pessoas. A expectativa de vida
das mulheres trans é de 35 anos. A média nacional, segundo dados do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de 75, 5 anos. Os transexuais
vivem 40 anos a menos, no Brasil, do que a sociedade em geral.
Não é difícil ouvir relatos emocionantes de homens
e mulheres trans que ficaram presos em seus corpos por muito tempo em busca de
ajuda.. Casos como o de ‘Jota’ não costumam ser compreendido pelos familiares,
o apoio nesse momento é fundamental. A psicóloga e sexóloga, Priscila
Junqueira, autora do Ebook ‘ Sua Sexualidade’, acha importante a presença e o
apoio da família durante esse processo. Nesses casos, a família sempre deve ser
ouvida, caso queira. E muitas vezes precisa fazer terapia também. “ É uma
mudança para todos”, finaliza a psicóloga.
Normalmente, a pessoa descobre a transexualidade
cedo. Jota conheceu a transexualidade aos 23 anos, em Pedreira, São Paulo, onde
vive até hoje. Ele classifica essa época como ‘ Thammy’, em referência à filha
da cantora Gretchen, Thammy Miranda, que se assumiu transexual em 2014. Jota
conta que na época leu entrevistas, assistiu a reportagens e se via nelas. Nesse
momento, descobriu que tudo o que sentia, como não aceitar o próprio corpo, a
vontade de ter músculos, barba, um quadril reto e inúmeras outras
características que o faziam pensar que estava tendo problemas mentais era uma
vontade de gritar ao mundo que seu verdadeiro ‘Jota’ era um menino e não uma
menina, como havia nascido e sido criado.
Na novela ‘
A Força do Querer’, o público pode ver
de perto os dramas vividos pela personagem Ivana, interpretado pela atriz,
Carol Duarte. Assim, como Jota achava que estava com algum problema mental, na
novela, Ivana não aceitava o corpo que havia nascido e depois de muito relutar,
revelou aos pais sua vontade de passar pela transição. A personagem chegou a
ser agredida e ofendida em diversos momentos da trama. As agressões começaram após
Ivana se vestir com trajes masculinos. Na vida real, os transexuais sofrem ao
sair na rua e esbarrar com o preconceito. Uma triste realidade para muitos
transexuais que vivem no Brasil. Só em 2017, o número de óbitos de pessoas
trans teve um aumento de 6%, segundo o Grupo Gay da Bahia (GCB).
Outro levantamento mostra que a cada 19 horas um LGBT é
assassinado ou se suicida vítima da “LGBTfobia”, o que faz do Brasil o campeão
mundial desse tipo de delito. Esses crimes são cometidos, na maioria das vezes,
por pessoas desconhecidas das vítimas, ou seja, uma questão de matar por puro
ódio. Apenas 4% (18) dos criminosos tinham algum tipo de vínculo com a vítima. E
preciso que a sociedade seja educada para lidar com o diferente, e a novela deu
o primeiro passo com a personagem Ivana.
Na trama, Ivana (Carol Duarte) se incomoda com o
próprio corpo, colocando faixas para tentar esconder o volume dos seios, além
de bater neles, como forma de repúdio e por achar que as mamas não deveriam
fazer parte do seu corpo. Esse conflito é algo que se percebe logo no início da
transição. Assim como Ivana, Jota se
via na personagem. Durante uns dez, anos sonhava que pegava manequins
masculinos e os cortava para que ele pudesse entrar e tomar aquela forma para
si. “ Quando eu acordava, cada milímetro do meu corpo doía, como se realmente
aquilo estivesse acontecido”, conta. Logo em seguida apareceu Tarso Brant, no
programa Pânico, nome artístico de Tarso Alexandre da Silva Borges, nascido
Tereza Cristhina da Silva Borges, um ator e modelo transgênero brasileiro.
Jota conta que foi aí que realmente se identificou
e começou a pesquisar sobre o tema, mas ressalta que sempre teve medo da não
aceitação das pessoas que ele ama. Por causa disso, foi deixando de lado o
sonho e bem-estar para outro momento. Quando a novela ‘ A Força do Querer’ foi
ao ar, e a transição da Ivana aconteceu, Jota conta que foi só explosão de
felicidade. A novela foi um divisor de águas para a sociedade e para aqueles
que como ele se sentiam “ presos”. O ator Tarso foi uma peça fundamental para a
composição da personagem Ivan/Ivana e além de inspirar a autora, participou da
novela.
O ator, assim como a personagem, sentia um
desconforto com as roupas, optando por usar camisetas e shorts, algo mais
despojado. Na adolescência, tinha rejeição à evolução das características
femininas, os seios, a voz e a menstruação. Tudo isso se adequou depois da
mudança. O apoio de Tarso ajudou a autora Gloria Peres a compor de forma
didática e pontual a personagem, além de apresentar o tema Transexualidade para
o povo brasileiro.
Para o ator,
a autora deu ênfase à compreensão do público sobre como se sente uma pessoa que
passa pela transição. “ Com certeza serviu para contribuir, pois colocando esse
assunto em discussão na sociedade, o público teria uma fonte de informação
detalhada a partir dos complementos da mídia. Trazendo uma mensagem muito
positiva e motivadora”. Na época de sua descoberta, o jovem ator buscava esse
tipo de personagem como referência. “ Tirando o contexto familiar, a narrativa
se assemelha muito com a minha e a de várias outras trans que vivem essa inconformidade
com o próprio gênero”.. O ator se tornou espelho para muitos que buscam se
descobrir e conseguir vencer os obstáculos da transição.
Tarso foi procurado por muitas pessoas
com histórias parecidas com a dele, em busca de ajuda e conselho. Para ele, a
compreensão que a sociedade tem hoje em relação a múltiplos assuntos vem se
desenvolvendo cada vez mais. Sobre o tema transexualidade, Tarso se mostra
confiante. “ Percebo que melhorou muito
depois de ter sido abordado em rede nacional e principalmente com o apoio da
mídia, que ajudou informando e buscando mais histórias”. Mas pondera: “O
preconceito existe, infelizmente, pela falta de interesse em absorver essa
informação, e propagação de uma cultura que não se adequa mais à demanda social que temos hoje. Nada que com
o tempo, estudos, avanços tecnológicos e debates públicos não seja convergente”,
finaliza. A discussão desse tema aumentou durante a exibição da novela.
As famílias começam a debater em
casa sobre o tema, o que é muito comum. Como foi o caso da socióloga, feminista
e jornalista Renata Feital, que, além de explicar sobre o processo da televisão
como agente de transformação, conta sobre como foi assistir à novela com seu
irmão, que tinha uma opinião contraria à dela sobre as questões abordadas na
trama. A socióloga assistiu alguns capítulos ao lado do irmão, de 55 anos, que
não aceitava a personagem trans na novela, tinha preconceito e debochava das
cenas em que a Ivana/Ivan aparecia, chegando
a fazer comentários de teor pejorativo. Renata conta que sempre o rechaçava,
questionando-o “ Por que ela não pode querer ser desse jeito? ”, “ Toda as
vezes que a transexual aparecia, nós tratávamos várias discussões”, completa.
Ela sabe que não vai mudar a opinião
de alguém de uma hora para outra, mas reparou que a partir das conversas, os
comentários maldosos diminuíram e as vezes ele ficava pensativo antes de falar
algo. “A novela é um entretenimento, um produto da indústria cultural, mas o
intuito dela é pautar os meios de comunicação a discutirem esses conteúdos”,
afirma Renata. No Brasil, tem a função social de fazer com que a sociedade
discuta temas importantes. A abordagem de causas sociais nas telenovelas é chamada
de merchandising social, que é a implementação de uma ação educativa para
informar o público, seja com um beijo gay, ou o direito das empregadas
domésticas. As mensagens sociais fazem parte do roteiro de uma novela, direta
ou indiretamente. Esses merchandisings sociais nas novelas correspondem a 25%
da programação na TV, e as novelas são o palco ideal para tratar causas sociais.
Pois sempre têm pessoas em busca de ajuda e de identificação com os temas
tratados.
Theo, mora em São Paulo, e é um homem trans
(pessoa trans que foi designada mulher ao nascer, mas que se identifica como
homem). Agora, com 34 anos, conta como foi a sua relação ao ver uma
personagem trans na TV. Theo conta que acompanhava a novela, e que abordagem do
tema o ajudou a entrar no assunto com a sua companheira, mostrando a ela que se
sentia igual a Ivana. Theo conta alguns de seus dramas que viu representado na
novela. “ Tinha repulsa e nojo dos meus seios, queria arrancar de qualquer
jeito”, conta. Sobre a abordagem da trama, analisa que a autora discutiu na
trama. “ Não teve tempo para mostrar as pessoas o que é ser uma pessoa trans”,
analisa. Theo conta que viu uma grande dificuldade nas pessoas em saber a distinção
entre gênero e orientação sexual.
A
psicóloga Priscila Junqueira explica a diferença entre os termos. “ Identidade
de gênero se refere a como a pessoa se identifica, e orientação sexual está
relacionada com quem a pessoa se envolve afetiva e/ ou sexualmente”, finaliza.
Essas dúvidas frequentes fazem com que muitas pessoas trans procurem uma ajuda
profissional. O próximo passo da maioria que passa pela transição é a injeção
de hormônios e a retirada, na maioria dos casos, das mamas, das genitais e
outros membros característicos de cada sexo.
Tarso Braint retirou as mamas em 2015,
mas no início de seu processo de transição deu muita importância ao trabalho de
profissionais capacitados para ampará-lo, entre eles endócrino, personal
trainer e nutricionista. Durante o processo, Tarso conta que seus maiores psicólogos
foram a fé, a leitura, a escrita, a prática de exercícios físicos (academia) e
mentais (yoga), que o ajudaram a não se afogar nos sentimentos muito intensos
que são característicos dessa mudança. “Depois de
alguns anos é que fui encontrar uma terapeuta, e hoje em dia ela complementa
muito esse processo de auto compreensão/ posicionamento social/ expressão”,
conta.
A novela
ajudou a dar uma voz a essa nova causa social, mas é preciso mais estudos, leis
e apoio para que os transexuais se sintam cada vez mais acolhidos, pois só
assim, poderá existir uma mudança favorável. A sociedade precisa ser educada
desde o nascimento a ter empatia pelo outro e que cada pessoa ama de uma forma
diferente. As novelas e os meios de comunicação fazem essa ponte entre a ficção
e o mundo real. Em uma breve pesquisa ao site Memória Globo Teledramaturgia,
4,4% das novelas da Rede Globo têm algum tipo de personagem transexual ou
transgênero ao longo do tempo, sendo que 85% dos personagens transexuais ou
transgênero tiveram final feliz. O preconceito precisa acabar, só assim, os
homens e as mulheres trans poderão ter um final feliz na vida real também.
NOME:
ANNA CAROLINA SALES DE BARROS






